Resenha por Alexandre Piccolo
10 de maio de 2004

Falar mal da política e dos políticos, especialmente em nosso país, não é muito difícil. Virou quase lugar comum e pode até iniciar com instigante originalidade curtos papos entre desconhecidos no elevador: “sabe da última falcatrua daquele f.d.p.?” - ao invés da convencional hipótese sobre a chuva. Claro, nada de longas e enfadonhas análises com profundas observações sobre desvio de verbas públicas, apenas comentários rápidos e mordazes sobre um já consolidado comportamento dos figurões da política que, no mínimo, evidencia uma eterna indignação com a canalhice dos donos do poder.
Dentro deste clima leve e ligeiro, a peça O Inspetor Geral, escrita em 1836 pelo ucraniano Nicolai Gógol, fala de política - mas não só. Encenada pelo Grupo Galpão, sob direção de Paulo José, a comédia destila críticas a políticos e administradores de maneira geral, a subornadores e subornados, ao serviço de aparência e à hipocrisia das instituições e dos cargos públicos. Não faltam espirros ácidos ao comportamento frívolo das mulheres, à credulidade simplória e à hipocrisia insensível dos homens. E, se quisermos, a toda humanidade em geral - ou “a nós mesmos”, nas palavras do diretor. Entretanto, a peça o faz sem as generalizações banais destes termos, com cenas de muito bom humor e em ótimo ritmo.
O argumento é simples e bom: com a notícia da visita que se aproxima do inspetor geral, supervisor de alto escalão das repartições públicas, o pequeno vilarejo e seus principais funcionários entram em pânico. O governador, o juiz, o diretor dos hospitais, a chefe das escolas e outros representantes públicos confabulam a melhor forma de receber o visitante - e dissuadi-lo de qualquer inspeção. Surge aí o aproveitador Ivan Aleksándrovitch Khlestakov (Rodolfo Vaz), malandro viajante equivocadamente tomado por todos como o inspetor geral em pessoa. Na confusão do papel e das inspeções não faltam situações hilárias de denúncia aos meandros do poder, à corrupção, à delação, à impunidade, aos favores etc.
Sobre a produção teatral: cenografia, figurino e iluminação primorosos. Do talentoso elenco, vale o destaque para os fazendeiros-comerciantes Piotr Ivánovitch Bobtchinski (Antonio Edson) e Piotr Ivánovitch Dobtchinski (Paulo André) que contracenam a engraçada dupla do baixinho e do altão orelhudos - paródia de “o gordo e o magro”. Algumas adaptações do texto à realidade dos espectadores (como “Ribeiron Pretovski”) parecem mais forçar o riso do que realmente acrescentar graça à peça, mas são tão poucas, pequenas e breves que passam praticamente despercebidas no conjunto.
Sobre a atualidade da comédia, não é preciso (mais) conjecturar. Um texto, vindo de tão longes terras, lido ainda hoje com tanta cor, graça e desenvoltura atesta não apenas a genialidade e a consagração do autor e de seu texto, mas reforça especialmente a perenidade deste caricatural reflexo cultural, cujos traços ultrapassam o sórdido universo político - bem como reafirma nossa eterna insatisfação ante safadezas tão comuns, que de tão esdrúxulas e freqüentes se tornam risíveis.
Titulo: O Inspetor Geral
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Resenha
Data de publicação: 10 de maio de 2004
Resumo: Risíveis safadezas das inspeções ao mundo político.
Faltou-lhe apenas mais considerações de que tão primorosa montagem somente poderia advir do melhor grupo teatral do Brasil.
Li aqui naPatada essa resenha, depois vi os cartazes pelo campus da Unicamp e me chateei: já não podia assistir mais. Tem tudo pra ser realmente uma excelente peça. Valeu pela dica e pelo texto.
Alê,uma resenha impecável. Gostei muito. Bjs, Marilda
Boa sujestão…um abração, samira
ótima resenha. deliciosa de ler. deu água na boca: será que esta peça volta pra Campinas?
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olha esse livro e umaporcariamas quando eu li isso ai fiquei loka e adoreii !
amo vc GOSTOSO