O Navio Sonoro de Sibelius

Resenha por Eduardo Socha
26 de abril de 2004

Serenos, os músicos finlandeses ocuparam rapidamente o palco. Aquela Orquestra Filarmônica de Helsinque, já no ataque do primeiro acorde, mais parecia um imenso navio sinfônico, colosso de metais, percussão, cordas, sopros, capitaneados pela figura simpática de Leif Segerstam. No convés, sonoramente aberto, traziam a Sinfonia nº 5 de Sibelius como bagagem para o Brasil.

Jean Sibelius não é apenas o maior compositor da Finlândia, embora esse cartão de visitas seja inevitavelmente o único apresentado. O título lhe convém, pois sua música retrabalha num primeiro momento o material folclórico daquele país, assim como fez a obra nacionalista de Villa-Lobos e Dvorak. Mas não é preciso conhecer a Finlândia para imergir na sonoridade grandiosa de Sibelius, música de verve impactante e sedutora. Sua sinfonia vai além de fronteiras, gruda na alma e tem alcance, portanto, universal.

Os músicos da Filarmônica de Helsinque respiram Sibelius desde pequenos, talvez mesmo antes de terem se tornado músicos. Não por acaso, a orquestra assumiu a reputação de "natural intéprete de Sibelius”, pois foi também nela que o compositor estreou praticamente toda sua produção. Daqueles rostos, sobressaía uma reverência fora do comum, um respeito quase místico. No caso da Sinfonia nº 5, um respeito sublimado em Mi bemol maior.

Silêncio. Respiração presa na sala. E então, as trompas, tímidas, comunicam a partida daquela nau sinfônica. Os demais instrumentos vão ingressando aos poucos, totalizando o corpo sinfônico. Surge aí o incompreensível. Crescem o jogo de contrastes, as dinâmicas violentas que por vezes retornam à sutileza do primeiro tema, certezas que se põem e no instante seguinte se dissolvem, uma alegria radiante justaposta à súbita melancolia. Brota um apego quase maternal e agressivo à tonalidade, a esse Mi bemol maior, persistente e vigoroso, pronto para explodir a qualquer hora, ultrapassando a fronteira da razão, decolando para uma realidade sem dimensões, visitando paisagens conhecidas mas nunca vistas, e que coloca o espírito em contato com o Absoluto. Atinge-se ali um grau inimaginável de tensão da tonalidade. Próximo do fim de limites, início de terreno arriscado. O fenômeno que Sibelius compôs não cabe na Finlândia. Cabe em algum cosmos além do sensível.

A viagem durou menos de uma hora. Conduzindo-nos de volta à sala, o navio finalmente aportou no acorde final, sob névoa incessante de aplausos. Cansado, porém generoso, o capitão/regente Segerstam agradeceu com entusiasmo e, após insistência dos navegantes da platéia, anunciou o bis em bom português: “Naturalmente, mais Sibelius”.

Questionado sobre que peças de música levaria para uma ilha deserta, Glenn Gould (presença indiscutível na lista dos grandes pianistas de todos os tempos) selecionou quatro obras; entre elas, a Quinta Sinfonia de Sibelius. Esse concerto que a Filarmônica de Helsinque realizou há poucos dias aqui no Brasil passou rente à ilha deserta de Gould. Intensa peregrinação náutica pelo oceano musical sempre inexplorado pela razão, a música de Sibelius desenha uma possível imagem sonora do sublime. Ou melhor, do naturalmente sublime.


Titulo: O Navio Sonoro de Sibelius

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Resenha

Data de publicação: 26 de abril de 2004

Resumo:

E então, as trompas, tímidas, comunicam a partida daquela nau sinfônica.

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Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

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