Resenha por Tânia Toffoli
3 de julho de 2004
Entre os ensaios escritos por Charles Baudelaire está Les Paradis Artificiels (Os Paraísos Artificiais) que fala a respeito da ingestão de drogas e seus efeitos estéticos. A primeira parte ?Um comedor de ópio? não será aqui tratada, sendo a segunda parte ?O Poema do Haxixe? o objeto desta análise. A edição utilizada é a da Editora Aquariana, coleção B, com tradução e notas de Eduardo Brandão.
O livro Os Paraísos Artificiais é dedicado a J.G.F., uma amiga de Baudelaire que não se sabe quem era. É uma dedicatória bastante interessante na qual o autor explica porque dedica “um quadro de volúpias artificiais” a uma mulher, já que esta seria “a fonte mais comum das volúpias naturais”; mas o faz questionando se é importante que se explique já que a compreensão só importaria àquele para quem a obra foi escrita. Acrescenta, bem à sua ácida maneira, que “teria o maior prazer em só escrever para os mortos”.
?O Poema do Haxixe? começa com o capítulo “O Gosto do Infinito” que é uma introdução ao tema abordado. Aí Baudelaire fala dos momentos em que o homem parece inexplicavelmente ter os sentidos exaltados, o que ele chama de “um estado paradisíaco” se comparado às “pesadas trevas da existência comum e cotidiana”. Acrescenta que desses momentos “deveríamos tirar, se fôssemos sensatos, a certeza de uma existência melhor e a esperança de alcançá-la mediante o exercício cotidiano da nossa vontade”. Segue dizendo que o homem buscou na “ciência física, na farmacologia, nas bebidas mais grosseiras, nos perfumes” uma maneira de fugir, mesmo que temporariamente de seu estado natural, que seria lodoso, e atingir as paradisíacas sensações desses momentos imprevistos. Esses usos viciosos seriam uma prova do gosto do homem pelo infinito; isso porque o levariam ao estado em que teriam se estivessem no paraíso, na eternidade. Mas o homem empregaria para o mal o excesso de paixão que teria dentro de si buscando “criar o paraíso” através dos efeitos de drogas terrenas que o levariam à perdição. Dessas drogas, escolhe o haxixe para estudo, fazendo uma análise dos “efeitos misteriosos e dos prazeres mórbidos que essas drogas podem engendrar, dos castigos inevitáveis que resultam de seu uso prolongado e, enfim, da própria imortalidade implícita nessa busca de um falso ideal”.
No capítulo seguinte “O que é o haxixe?”, Baudelaire explica detalhadamente de onde vem a droga, as diferentes formas como pode ser preparada e consumida e descreve suas características.
“O Teatro de Serafim” é o capítulo dedicado à descrição das fases dos efeitos causados pelo uso da droga através de quatro narrativas chamadas pelo autor de “anedotas”. Baudelaire deixa claro que o que acontecerá com o usuário não é nada de miraculoso, mas apenas uma elevação altíssima de si mesmo, de sua sensibilidade. Utiliza-se de certo sarcasmo ao falar nos prazeres da droga e nos efeitos, principalmente em longo prazo. O aspecto mais interessante nessa descrição é a perspectiva poética que o autor lhe dá. Especifica o momento a ser escolhido com cuidado, devido a possíveis inconvenientes. Diz que o haxixe não aumenta só o indivíduo, mas também a “circunstância e o meio”. Sendo assim, inquietações poderiam atrapalhar o prazer.
Descreve a primeira fase como sendo de hilaridade e sentimento de superioridade em relação aos que não estão no mesmo estado: “o louco fica com dó do sensato”. Tem-se aí o sentimento de indulgência. Posteriormente diz haver uma “acalmia momentânea” que é seguida de “uma sensação de frescor nas extremidades” e uma delícia na preguiça, em não mover o corpo, “como se o seu antigo corpo não pudesse suportar os desejos e a atividade de sua nova alma”. A terceira fase é descrita como a manifestação de “uma acuidade superior de todos os sentidos”. Além de proporcionar alucinações que deformam e transformam o ambiente. É nessa fase que se vê a questão da correspondência das artes que tanto chamava a atenção de Baudelaire. Coloca que há uma contemplação tão grande do meio que se acaba por esquecer-se da própria existência pelo fato desta confundir-se com os objetos exteriores. Vê aí uma semelhança com os poetas panteístas. Há uma torrente de idéias e sensações que faz com que se tenha a impressão de ter vivido uma eternidade, devido à intensidade e variedade de sensações. A fase seguinte é descrita como “uma beatitude calma e imóvel, uma resignação gloriosa” seguida do que Baudelaire chama de “alucinação moral” ? sente-se uma “maravilhosa leveza de espírito”. Mas o corpo está tão fatigado que torna o homem “incapaz de trabalho, de ação e de energia”. Baudelaire vê esse estado como punição provinda do gasto do “fluido nervoso”.
No capítulo “O homem-deus”, Baudelaire passa a expor não mais os traços materiais do efeito da droga, mas seu efeito moral e espiritual. Diz que a inteligência torna-se escrava e os pensamentos “rapsódicos”; esse estado causaria um estrago moral. Inclusive, afirma serem, os venenos excitantes, encarnações perfeitas do “Espírito das Trevas”. Passa, então, a uma análise das questões morais, não mais através de anedotas esparsas, mas de um só homem, uma espécie de modelo, o qual define como “homem sensível” a maneira do século XVIII.
Comenta que “a alegoria ? esse gênero tão espiritual que os maus pintores acostumaram-nos a desprezar, mas que, na verdade, é uma das formas primitivas e mais naturais da poesia ? retoma sua dominação legítima na inteligência iluminada pela embriaguez”. Diz que a ampliação do tempo e do espaço também se aplica a sentimentos e idéias. O embriagado vê em si mesmo uma beleza moral e uma superioridade que o faz admirar-se de forma narcisista. Nota que alguns buscam no haxixe uma forma de ampliar, por exemplo, o amor que já seria tão forte em seu estado natural; isso seria algo extremamente perigoso já que situações inocentes teriam seu valor muito aumentado, lembranças e dores assim também seriam. A questão da indulgência sentida pelo usuário seria uma espécie de filantropia por piedade e não por amor, sendo este “o primeiro germe do espírito satânico que se desenvolverá de maneira extraordinária”. O remorso se transformaria numa forma de contemplação de si mesmo, já que o homem se glorificaria do fato de sentir remorso por algo. Essa seria a forma da perfeição diabólica, já que o homem conseguiria desvirtuar inclusive um sentimento que seria nobre ? o de remorso ? transformando-o em elemento de sua vaidade. Através desse sentimento de superioridade, o homem ficaria num estado de alegria e serenidade por causa de sua plenitude diante de tudo. O raciocínio absorveria os pecados do passado tornando-os motivo de orgulho através da falsificação da situação promovida pelo intelecto. O homem faria de si mesmo o centro do universo; acreditando ser Deus o desafiaria por discutir suas vontades e enfrentá-lo sem medo.
Vê-se, especialmente nesse capítulo, um panorama da visão religiosa de Baudelaire. O homem como ser corrompido pelo pecado original tentando alcançar o paraíso através de sua podridão, sendo sempre tentado pelo Mal.
No último capítulo “Moral”, Baudelaire fala a respeito do dia seguinte ao uso da droga. O homem que teria querido ser Deus cairia bem mais abaixo que sua natureza real, já que teria se deixado corromper por não aceitar as condições da vida que Deus lhe teria imposto por causa de seu pecado. A “infalibilidade do meio” constituiria a imoralidade do haxixe, já que seria contra as intenções de Deus que o homem assim alcançasse o estado paradisíaco. Além disso, o uso do haxixe tornaria o homem inútil à sociedade e esta supérflua ao indivíduo que admira somente a si mesmo e sua superioridade diante de tudo a sua volta.
Baudelaire considera a possibilidade que poderia ser levantada por alguns utilitaristas de que o uso do haxixe poderia trazer algum proveito espiritual e a rejeita dizendo que além do meio de conseguir tal proveito ser terreno e não divino, como deveria, também existe o fato de que diminui a vontade apesar de aumentar o gênio e isso faria com que não se pudesse tirar proveito desse aumento. E mesmo havendo alguém que fosse tão habilidoso e vigoroso que conseguisse escapar à falta de vontade, haveria o perigo de que o uso da droga se transformasse em necessidade para o exercício da imaginação, isso seria danoso para a liberdade do homem que não conseguiria mais pensar naturalmente, sem a droga.
No final do ensaio há uma retomada do início, a questão da busca do infinito é novamente discutida. Baudelaire diz que haveria a possibilidade de chegar ao céu por meios lícitos e que o homem deveria exercitá-los, seriam eles a redenção pelo trabalho e contemplação que seriam feitos através do uso da vontade e da “nobreza da intenção”. A criação artística seria o único milagre que Deus teria permitido aos homens.
Titulo: O Poema do Haxixe
Autor: Tânia Toffoli
Gênero: Resenha
Data de publicação: 3 de julho de 2004
Resumo: Resenha de um ensaio interessantíssimo de Baudelaire.
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Bacana, Tânia, o tema e a resenha - excelente exercício. Além do preciosismo nos detalhes resgatados do texto, gostei de sua observação sobre a reflexão religiosa sugerida por Baudelaire.