Previsível

Resenha por Alexandre Piccolo
13 de julho de 2004

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Cartazes de Cazuza e
Casamento Grego

Confesso que não tenho sido muito seletivo com os filmes a que assisti nestes últimos dias. Como dizem por aí, deve ser a fase: há dias mais alegres, outros cabisbaixos. Com os filmes talvez também se dê o mesmo, uns tempos mais “tolerantes”, outros nem tanto. Vamos, pois, ao fim previsível.

Shrek 2 é mais engraçado que o primeiro e deve ser mais legal com som original (com Antonio Banderas como o Gato de Botas, segundo os créditos). O enredo simples da bela animação já denuncia toda a graça: Shrek vai conhecer os pais da princesa Fiona, com quem se casou ao final do primeiro filme (ops!, será que você viu o primeiro filme?!). Bem, ainda que o rei e a rainha já soubessem que sua linda filha tenha se casado com um ogro, o mero primeiro encontro entre sogro, sogra e qualquer genro-não-monstro comporta, em si mesmo, embaraços e imprevistos valiosos para boas risadas. Humor que, certamente, já deve ter lá sua história e idade apropriadas - e não pede conhecimento prévio de filmes anteriores para total compreensão e divertimento. O final, bem, esse pode ser conferido na tela grande - pra não perder a graça do filme.

Meet the Parents, conhecido na telas quentes brasileiras como Entrando numa Fria, com Robert De Niro e Ben Stiller, é outra comédia de leitmotiv (me desculpe o “preciosismo”) muito parecido, disponível em vídeo e dvd ? e que vale as risadas. Neste, a banalidade do frívolo despenca ao desconforto cômico do improvável, em seqüências irrefreáveis de pura estupidez ? “pastelaria” de primeira, resumindo. Naquele, o inusitado se mistura ao plástico do desenho animado e o aspecto mágico histórias de fadas ganham o colorido moderno da animação computadorizada. Ambos valem os risos. Outro já não tão bom é o desenho da Disney Nem que a vaca tussa (Home on the Range), animação tradicional razoavelzinha. O design e as cores são bacanas, o diminutivo fica por conta do enredo, não tão edificante e entrelaçado como A nova onda do imperador, Rei Leão ou Alladin.

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Cartaz de
Homem-Aranha 2

Cazuza, O tempo não pára ("?!?" = a imprensa diz que houve dificuldade na escolha deste subtítulo, dentre vários possíveis), me deixou meio desapontado, talvez por desfazer o falso mito de um cantor engajado política e socialmente numa perdida década de 80. Clichê por clichê, o papel do filme não é propriamente desfazê-los e, entre o desequilíbrio das cenas de filho rico e mimado nas baladas cariocas e as apresentações, shows e músicas entoadas pela banda e pelo público, o fio condutor da história se perde. As atuações merecem destaque, com a devida ressalva: semelhança física realça porém não sustenta uma biografia no cinema. Para não perder o ritmo do riso, Casamento Grego (My big fat greek wedding) também mereceu suas boas risadas, bastante estereotipadas mas igualmente gostosas. Novamente, a atrapalhação e o estorvo de famílias e enamorados se [inter-]relacionando. Com ou sem risos, finais de filmes dentro do verídico ou do verossímil risível.

Homem-Aranha 2 (Spider-man 2) não foge à regra e é também melhor que o primeiro filme da série. O herói se desenvolve com mais profundidade (novamente, me desculpe o “preciosismo”), o novo vilão garante um desafio mais árduo, as imagens estonteantes dos passeios pelos arranha-céus estão mais vertiginosas: a saga do aracnídeo prossegue. E promete continuação. Dois nós cegos na teia importunam: o discurso panfletário norte-americano que embasbaca (“with a great power comes a great responsibility”, resgatado do Uncle Ben, do primeiro episódio) e a identidade do herói revelada. No fiel pacto espectador-filme, a cumplicidade de Peter Parker (para os desavisados: o duplo do Homem-Aranha) se esvai com o segredo da identidade revelada ? ainda que os novaiorquinos prometam guardá-lo a sete chaves. Noves fora, a série do aracnídeo é a melhor adaptação dos quadrinhos para a tela grande ? tem sua própria estética sem ofender ou se esquecer de sua origem no papel.

Pra não terminar dizendo que a última pérola é Harry Poter (não tenho acompanhado a saga do bruxinho do Pot…), a “tolerante” jornada cinematográfica se encerra com um Hitchcock: Trama Macabra, ou bem melhor, Family Plot, de 1976, último filme do diretor, já com 76 anos. Um breve parêntese para explicar o “bem melhor”: algumas traduções para o português dos títulos dos filmes de Hitchcock carregam, no mínimo, a moral preconceituosa do período e/ou dos tradutores (Rope virou “Festim Diabólico”; Vertigo, “Um Corpo que Cai”; North by Northwest, “Intriga Internacional” etc.). Desabafo concluído, talvez sobre algum comentário: a forma casual como os caminhos de charlatões e assassinos se cruzam engendra um suspense angustiante rumo ao final do filme. Chuva no molhado em se falando de Hitchcock ? e ainda assim há algo de diferente neste filme, algo disfarçadamente hilariante. Lances cômicos, de uma realidade urbana risível e cotidiana misturam-se ao passado mórbido de um personagem indecifrado, condutor de toda a trama. A suspensão do mistério dos poderes mediônicos de outra personagem, desvendado e recriado em detalhes sutis, atesta a genialidade do diretor.

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Cartazes de Shrek 2 e
Entrando numa Fria

Em entrevista a François Truffaut, Hitchcock confessava retirar os roteiros de seus filmes de romances fracassados, cujos autores não percebiam a minúscula falha em suas histórias. Um pequeno ajuste ou rearanjo final e… voilà: uma verdadeira obra-prima. O que impressiona em seus filmes ? e os diferencia do supra-citado ?, dentre vários aspectos passíveis de análise, é sua imprevisibilidade final, sua última cartada cujas origem e desfecho rara e dificilmente se predizem.

O resumo é enfadonho e previsível. Filme é passatempo, cinema é arte. Destes filmes todos, Hitchcock foi único assustadoramente imprevisível desde o começo, desde a intenção ? passando pela trama, pelos atores, pela filmagem e pelo desfecho ? aos créditos finais.


Titulo: Previsível

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Resenha

Data de publicação: 13 de julho de 2004

Resumo:

Palavras pateticamente previsíveis.

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2 Comentários

  1. Mário disse:

    Excelentes resenhas, Piccolo. Assisti a maioria dos filmes que comentou e acertou em cheio. Resenhas cheias de reflexões. Muito bom!

  2. PH disse:

    Legal, Alex. Boas resenhas, que não são carregadas de “preciosismo” e dão boas dicas para o leitor.

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