Resenha por Leonardo Augusto
9 de julho de 2004
Caros fregueses, precisei ausentar-me neste fim de semana. Mas isso não é motivo para deixá-los passando fome, que aliás, depois da última quitanda, deve estar enorme. Meu assistente Lafaiete Peçonha os atenderá cordialmente, espero.
E aí, vão comprar ou vão ficar só apalpando minhas frutas? Cambada de pão duro! Arrrrr (cusparada) olha que estamos em promoção!
Produtos vencidos: de volta à prateleira.
Não precisa nem pagar
Meu chefe gosta de falar bem de tudo que está à venda aqui, mas a verdade é que nosso estoque está cheio de mercadoria encalhada, e eu vou me livrar de tudo agora.
Os anos oitenta estão de volta, salve-se quem puder. Hoje eu liguei a tevê de manhã e lá estava Sua Majestade Xuxa, uma gaúcha espadaúda que tentou a sorte na porno-chanchada, numa cena em que seduz uma criança duns dez anos. Mas ela foi uma vencedora e deu certo na vida, deu pra Sua Majestade Pelé, entende? Ele se encarregou de banir a fita supracitada, mas falhou em manter sua branquela, que arrastou a asa pra outro ídolo nacional, o maior deles: Ayrton Senna. Foi o suficiente para ganhar a mídia e tornar-se o ícone de uma geração, estabelecendo um padrão de programa infantil erotizado ? que foi alvo da sátira de Matt Groening, no episódio em que os Simpsons vêm ao Brasil.
Lembra quando surgiram várias bandas de Brasília, por exemplo, o Capital Inicial? Pois a MTV (Merda Television) operou uma necromancia com um de seus Acústicos, e eles estão aí com os mesmos três acordes, as mesmas roupas coladas, a mesma cara de moleque, mas certamente com quilos de pelanca cortados fora. E aquele tal de Renato, capitão duma Legião de rebeldes sem causa? Você achou que se livraria dele tão fácil, mas ele toca o tempo todo na rádio, e a cada gravação que é misteriosamente encontrada, lá vem um disco póstumo. Acho que tem algum impostor interpretando uns papéis amassados, que são tomados por alta poesia, mas não passam de rabiscos de uma bicha deprimida. Tá russo…
No plano mundial, então, nem se fala. Os ?eighties? foram os anos dos yuppies, jovens bem sucedidos, executivos de grandes corporações preocupados em investir na bolsa, curtir uma vida libertina e em renegar os ideais de seus pais hippies. Pois eu conheço vários contemporâneos meus com essa mesma postura; pena que a cocaína não tenha hoje o glamour que tinha então, pois ajudaria a eliminar essa escória. Quem não curtia essa onda podia aderir à ideologia gótica, usar roupas pretas e maquiagem, e ter um aspecto tão doente quanto possível. Hoje, fãs do Evanescence ou do Nightwish repetem a mesma asneira, mesmo morando numa terra ensolarada como a nossa. E um dia desses que eu estava brigando com o ?dial? e tropecei nessa: “Esse foi o A-ha, ficamos agora com Rick Astley”. Jesus Christ Almighty? Por que eles não resgatam as coisas boas como Talking Heads ou Peter Gabriel?
Chocolates Chiques: Sapo Crocante.
Uma fortuna pelo Speedy…
Voltando uma década, podemos encontrar aquele que foi provavelmente o melhor programa da história da televisão: Monty Python?s Flying Circus. Bem menos conhecido que os longa-metragens do grupo como A vida de Brian e Em Busca do Cálice Sagrado, o programa semanal da BBC era ainda mais absurdo e experimental. John Cleese, para mim, é o maior comediante vivo, assisti até ao filme do James Bond, e àquele Rat Race (esqueci o título no Brasil) para vê-lo; ele fez também um papel sério no Frankenstein, aquele com o de Niro como o Monstro. Terry Jones era o galês da trupe, com um sotaque engraçado, e apareceu depois apresentando uma série de documentários sobre História Antiga. A maldita Sida (Aids, se preferir) abreviou a vida de Graham Chapman, e a do MP conseqüentemente. Eric Idle, o loirinho, apareceu em alguns filmes hollywoodianos, como Família Adams, mas também fez o cult The Rutles, paródia dos Beatles. Micheal Palin também seguiu atuando, por exemplo em Um Peixe Chamado Wanda, ou no (tão genial quanto esquisito) Brazil, dirigido por… Terry Gilliam, o único americano do grupo, que viria a ser um diretor de primeira linha, responsável por Medo e Delírio e Os Doze Macacos, para citar mais dois.
Estruturado em esquetes, o show tinha duração de meia hora e periodicidade semanal. Qualquer semelhança com o Casseta & Planeta é mera coincidência. O humor britânico e o brasileiro são como água e óleo. Aquele é avesso à apelação sexual, é mais sutil, enquanto este é criativo, mas i(a)moral e preconceituoso ? o Monty Python só tem preconceito contra a parcela da humanidade que não é britânica. Além disso, o que eles fizeram era atemporal, e é tão engraçado hoje como o vai ser daqui a mais trinta anos, o que não se pode dizer dos cassetas, que hoje só fazem piada da própria Globo.
Alguns dos melhores esquetes foram apresentados ao vivo no Hollywood Bowl, e o VHS dessa noite pode ser facilmente encontrado nas locadoras; já os episódios, tente no Kazaa ou coisa que o valha, não é tão difícil. Meu patrão gravou uma fita com doze deles, pode pedir, mas duvido que ele empreste. Segundo ele, tem valor sentimental, pois lhe lembra sua adolescência (que ele nem superou ainda), quando voltava da escola e assistia ao Flying Circus na Retrô TV, num canal desses pagos. Cenas como o treinamento de defesa pessoal contra agressores armados de frutas frescas, o guarda plantando um flagrante de sanduíches e se perguntando o que teria dado à esposa, a entrevista de emprego em que o aplicante é humilado (antevendo as atuais dinâmicas de grupo) e a visita da vigilância sanitária à fabrica de chocolates cuja especialidade era o bombom de sapo crocante são parte de sua formação pessoal, como ele diz. Mas o esquete mais hilário, do julgamento marcial, ele nunca achou.
Se você quer conhecer mais deles, há dois filmes menos conhecidos que também são ótimos: O Sentido da Vida e Jabberwocky.
Titulo: Quitanda do Leo 10/07/04
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Resenha
Data de publicação: 9 de julho de 2004
Resumo: Temporariamente substituído.
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boas quitandas, Lafaiete. A fita do Flying Circus no Hollywood Bowl é realmente fácil de achar e vale a pena. O John Cleese na platéia é hilário.