Resenha por Leonardo Augusto
2 de maio de 2004
Atendendo a incontáveis pedidos (aproximadamente zero), esta coluna de nome e periodicidade incertos passa abordar outros assuntos que não música. E passa a ter um nome. Portanto, dentre nossas frutas, legumes e hortaliças, você poderá encontrar cinema, literatura, televisão, esporte, e o que mais me vier à veneta. Sejam bem vindos à quitanda do Leo. Sintam-se em casa.
Laranja: movida à corda.
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Acabo de reler a obra-prima de Anthony Burguess: A Clockwork Orange. Sim, Laranja Mecânica para nós brazucas. Conhecido pela esmagadora maioria através da película de mestre Kubrick, o livro de 141 páginas, publicado em 62, é que deveria ser reverenciado, pois 'além' de ter vindo antes, representa uma revolução bem maior na Literatura do que o filme foi no Cinema. Pasmos? Além de ser cercado de inúmeras histórias, incluindo um dos maiores estelionatos literários da indústria do livro.
Narrada pelo protagonista Alex ? o mais formidável anti-herói da História na opinião de Seu Humilde Quitandeiro ? no dialeto nadsat, uma deliciosa perversão do inglês com palavras de origens russa e cigana, e onomatopéias engraçadíssimas, e ecos de inglês elizabetano, a história gira em torno um rapaz louco por sexo (forçado, claro), drogas (leite+ no caso), ultra-violência (em doses maciças) e… Beethoven (e outros clássicos). Traído e capturado, é usado como cobaia num tratamento pavloviano contra o impulso criminoso, a Ludovico Technique. Bem, vocês sabem mais ou menos. Ou tratem de saber, O my droogies.
Burguess: você talvez já o visto na TV Cultura falando sobre literatura. Sim, um especialista. Um dos maiores em termos de Joyce. Muito embora sua primeira atividade tenha sido… Música! Compunha peças para orquestra, inclusive uma versão para Ulisses: Blooms of Dublin. Anthony Burguess de fato não gosta de ser conhecido por Laranja Mecânica, que foi parte de um esforço hercúleo de compor 2000 palavras por dia, totalizando em um ano de oito a dez romances de algo em torno de 100.000 palavras cada. Isso porque aquele deveria ser seu ano terminal, já que lhe fora diagnosticado um tumor incurável na cabeça; isso no ano de 59, e ele veio a morrer em 93. Terminou cinco romances e meio naquele período. Este meio era C.O., concluído em 62.
O problema foi que, ao ser publicado nos EUA, o livro teve o último capítulo sumariamente extirpado, e foi essa versão que Stanley Kubrick usou. Mas como, for Bog´s sake, você pode cortar o final de uma história? Those grazhny bratchnies…
Tem mais: há um forte componente autobiográfico (sempre há) na própria concepção do livro, pois a primeira esposa de Burguess foi violentada por um grupo de quatro desertores GI, vindo a falecer precocemente. Segundo ele, foi um ato de caridade narrar o livro do ponto de vista dele, agressor, e não da vítima.
Anyway, a real horrorshow book, Thou canst believe. And all that cal.
P.S. Obrigado ao Cabelo pela primeira leitura.
Carnes: Os mais nobres cortes.
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Quentin Tarantino está de volta com uma das maiores carnificinas já presenciadas na tela prateada. Kill Bill vol.I até que enfim chegou ao Brasil. Mas eu vi antes. Comprei o DVD na Praça da República (onde inventei de comer um acarajé que fez meu suor ficar marrom). Mas é claro que já fui ver na telona. Sério candidato a filme da década, um show à parte de miss Thurman, Tarantino em sua melhor forma e com recursos à vontade. Claro que você não deve ir ver com sua avó, ou mesmo sua namorada, se ela for impressionável, mas fica bem claro que há bem mais que a violência ali. Há a narrativa não linear ? mais uma vez ?, a homenagem à estética, língua e principalmente às espadas japonesas. Há uma cinematografia (fotografia) genial, trilha competente, grandes atuações, e muito, muito sangue, claro. Olhem que eu nunca curti filmes de ação e violência, mas o cara simplesmente sabe o que faz.
Desenvolvido a partir de uma idéia de Q&U no set de Pulp Fiction, mais especificamente a personagem The Bride ? vivida por Uma claro, Kill Bill conta a saga da pobre moça que é executada ? grávida ? em seu casamento, mas sobrevive. Saindo de quatro anos de coma, vai em busca de sua vingança. Seu alvo, o Esquadrão Assassino Vespa Mortal (DiVAS), capitaneado pelo infame Bill, ao qual pertencia, junto a mais três fêmeas fatais: O-Ren Ishii, ou Cottonmouth, Vernita Green, ou Copperhead e Elle Driver, ou California Montain Wolf. No vol.II descobre-se que Budd, irmão de Bill, era mais um dos membros. Quando a personagem de Uma desiste de ser Black Mamba e se casar numa cidadezinha no meio do deserto, o resto do time extermina toda a comitiva matrimonial, mas ela ainda daria a volta por cima.
Um grande trunfo do filme, apontado por todos, foi a multiplicidade de técnicas narrativas: videoclip, anime, preto-e-branco; outro é a qualidade da edição, ágil e precisa; as cores do filme são soberbas. E a coreografia das lutas é alucinante. A cena em que Uma chacina os 88 loucos de O-Ren é tão plástica quanto sangrenta e tão cômica quanto exagerada.
Um filme obrigatório.
Titulo: Quitanda do Leo
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Resenha
Data de publicação: 2 de maio de 2004
Resumo: Produtos de ótima procedência
já virei freguês desta quitanda, Leo! Duas delícias exposta na sua banca. Sobre o Burgess, eu tenho o livro “Homem Comum Enfim” (“Here Comes Everybody”), no qual ele analisa a obra do Joyce. Fantástico. Meu caro feirante, que tal um escambo temporário deste por “Clockwork Orange”? É pegar ou largar…;-)
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Ótimas dicas, Leo. Violência presente em peso, do bardólatra Burguess ao pirado Tarantino - este último, em Kill Bill vol.1, vale pelos simples sarcasmo e descaso violento protagonistas da própria violência do filme (além de Uma e Liu!). Barraca das boas essa sua…