Resenha por Leonardo Augusto
12 de junho de 2004
Em novas instalações para abrigar melhor você, amigo freguês. Com muito orgulho e responsabilidade (espero), assumo agora o ?status? de colunista, zelando pela boa alimentação e pela leitura patadiana de cada dia. No caso, do dia de sábado, dia de feira. Então vem levar verdura, fruta, legume, leite, carne, frango, peixe e muito mais, tudo novinho e fresquinho na Quitanda do Leo.
Açúcar: dos grandes
Uma nota preta pelo CD gringo ou um pouco de paciência pelo MP3.
Big Sugar: taí o nome de uma banda pouco ou nada conhecida. Foi mais um golpe de pura sorte. Meu pai chegou com um disco em casa pra mim da prateleira super-econômica, onde ele sempre comprava. Era um ?sampler? de uma gravadora com grupos de rock; dentre coisas menos interessantes, estavam lá Jeff Healey, guitarrista cego que já veio diversas vezes ao Brasil, e este tal de Big Sugar. Com dois petardos blues-rock: Wild Ox Moan, um slow blues tradicional, sofrido, e Ride Like Hell, intensa e barulhenta, carro-chefe para o álbum 500 Pounds, que seu quitandeiro arrematou junto à CDNOW, em priscas eras de quase-paridade, para ter uma grata surpresa. Os canadenses liderados por Gordie Johnson ? empunhando uma guitarra chorona e fazendo pleno uso de sua boa voz ? passeiam por todos matizes do Blues, apimentado com um swing quase funkeado às vezes, a bordo de um instrumental coeso e discreto, mas ainda criativo. Sugar in my coffee e Standing Around Crying, outros temas tradicionais ?pervertidos? e Dear Mr. Fantasy, cover de Traffic, são mais alguns pontos altos. Discão.
Batatas: ao vencedor.
Valor inestimável.
Que audácia minha falar sobre Machado de Assis. Mas lá vai. Esta semana fui visitar nosso ilustre amigo e colunista P.H. Ferreira e, no meio da prosa fácil de bom mineiro, uma coisa bacana ele disse: que Machado havia sido seu melhor professor na faculdade.
Claro, quem poderia ensinar mais sobre a natureza humana, sobre nossa língua e sua plasticidade, que ele faz tão evidente, sobre o cinismo da sociedade no tempo da corte (não que tenha melhorado), ou sobre tantas outras coisas? Cada um tem sua história de contato, aproximação e encantamento com o trabalho do Bruxo do Cosme Velho. Da minha geração, asseguro que a maioria viu a adaptação da Globo para O Alienista, bem divertida. Muitos ficaram por aí, mas quem teve a sorte de buscar os escritos achou um tesouro inestimável. No meu caso foi o próprio Alienista e em seguida Qincas Borba, onde está a pérola que é o mote do Humanitismo: Ao vencedor, as batatas!
O SBT está fazendo uma enquete para eleger o maior brasileiro da História, nenhuma vez apareceu a elegante efígie de Machado; a Globo já decidiu há muito que este título pertence a um mártir do automobilismo, em vida um rapaz competente mas encrenqueiro, que chegou a esmurrar um colega de profissão, e insinuar ter transado com a mulher de outro, conterrâneo seu. Mas ninguém se toca que o maior brasileiro foi um mulato, filho de lavadeira ou coisa que o valha: Joaquim Maria Machado de Assis, que aliás costumava usar pó-de-arroz para disfarçar sua compleição mestiça. Machado tem um status no panteão de nomes nacionais inferior até a Tiradentes, um pobre alferes que foi o bode expiatório da Inconfidência Mineira. Cada país tem os heróis que merece.
Agora finalmente o que de fato interessa, a literatura de Machado de Assis. Sua prosa elegante e prazerosa, pontilhada de uma fina ironia, produziu grandes romances certamente ? Dom Casmurro é o mais célebre, Memórias Póstumas de Brás Cubas o mais celebrado, Esaú e Jacó é outro ótimo ? mas sua maestria era total no que se tratava de contos. Neste formato conseguia contar histórias brilhantes, com muito humor, principalmente sobre a sociedade da capital imperial, traçando um retrato psicológico da época; mas dava-se freqüentemente à ficção histórica e até bíblica. Mais uma vez não vou citar nenhum conto para não ser injusto com tantos outros. Enfim, eu não poderia elogiar o suficiente este grande homem que contra adversidades de saúde (era epilético e gago) e ordem social, erigiu uma obra monumental, ajudando a legitimar a identidade brasileira e difundindo-a no mundo.
P.S. Este texto ficou na ?gaveta? um bom tempo devido a problemas de ordem técnica.
Titulo: Quitanda do Leo
Autor: Leonardo Augusto
Gênero: Resenha
Data de publicação: 12 de junho de 2004
Resumo: Volta às atividades normais.
Legal ter você como colunista! Quanto ao Machado, dez! Quanto à banda, preciso conferir… hehe. Depois digo o que achei… Abraço!
Maravilha, Leo. Sábado sem feira não é sábado que se preze… Que as ‘atividades’ corram sempre com esta “normalidade”, digna dos mais altos louvores.
Adorei o texto. Rico, com doses equilibradas de humor e informação.
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Ô Léo! Gostei da inauguração oficial da sua quitanda. Todos os sábados, coisa boa. Bom resgate de um disco desconhecido e uma hilária análise sobre a literatura e os heróis nacionais, através de um saboroso texto sobre o nosso professor Machado de Assis…:-)