Um homem e suas palavras

Resenha por Eduardo Socha
8 de maio de 2003

2_esocha_y0tg2a
Nelson Freire: passionalidade e timidez.

Último acorde. E uma profusão de aplausos. O documentário começa pelo fim do concerto. Nos bastidores, a câmera registra o desarranjo emocional de Nelson Freire. Ele consegue dizer apenas “me dá um cigarrinho.. tem um cigarrinho aí?”. Pessoas em volta e a câmera gira, perde equilíbrio, imiscui-se na perturbação do artista. “Me dá um cigarrinho”…

De imediato, a abertura do filme parece remeter àquela idéia de circularidade, ou seja, remontar uma trajetória até este fim de concerto e tentar decifrar os motivos para o transtorno do pianista. Mas o roteiro evita a obviedade do recurso. Não quer seguir uma linha temporal ou temática; não há compromisso lógico de conexão entre sequências. O que se tem é um amplo tecido documental, formado por 31 células narrativas entrelaçadas por legendas em fundo preto. O constante foco no artista é o que pontua, na verdade, o roteiro. Com isso, os depoimentos externos são minguados: apenas uma leitura em “off” de duas cartas, uma informal descrição de Martha Argerich sobre o primeiro encontro com o amigo “Nelsoni” Freire, e uma entrevista, fragmentada no decurso do documentário. E só. A intervenção da equipe de filmagem é sempre discreta, quando existe, e nunca invasiva. Sobram então a expressividade musical e alguma intimidade do artista, resultado da convivência de um ano e meio com a equipe.

Desta maneira, desenham-se os traços conhecidos da personalidade de Nelson Freire, entre eles a notória dificuldade de comunicação verbal e a simpatia mineira. Em um dos ápices do filme, por exemplo, o mineiro procura expor através de palavras seu fascínio por Guiomar Novaes (renomada pianista brasileira do início do século). Não consegue. Ele coloca então um CD de Guiomar, interpretando uma triste ária de Gluck, e observa aliviado a equipe de filmagem no contra-campo. No final, ele pergunta “Gostou?”. Freire rejeita a palavra, encontra na eloquência do discurso musical uma força superior ao verbo. Também justifica sua introversão e timidez pelo ofício de concertista, no qual o hábito à solidão e o afastamento do “star system” constituem, segundo ele, elementos fundamentais. O que não significa, entretanto, um comportamento altivo e rançoso diante das pessoas. Sua virtude é conseguir manter um carisma, uma afetividade no olhar e uma docilidade rara nesse meio artístico tão caracterizado, infelizmente, por idiossincrasias arrogantes. Seu silêncio também é fonte de bom humor. Um entrevistador-mala da TV francesa lhe pergunta “se o clima quente do Brasil altera seu modo de tocar piano”. Freire olha para nós e faz cara de “vixe, onde fui me meter”.

Seu temperamento e sua clareza nas frases musicais lançam-no à atual tríade dos virtuoses mundiais, ao lado talvez de Bruno Gelber e Maurizio Pollini. Embora sempre avesso a idolatrias e ranqueamentos, o mineiro de Boa Esperança sabe que já entrou para a história dos grandes instrumentistas da humanidade. E apesar disso, diverte-se infantilmente numa sessão de autógrafos, declara sua aflição ao tocar pela primeira vez na Rússia (a frieza das ruas de São Petersburgo sublinha este nervosismo), reconhece a alegria na liberdade de improvisação do pianista de jazz Errol Garner, que modestamente inveja. Mas há muito cigarro antes e depois dos concertos. Palco para manifestação de tensões internas e de profundas cicatrizes passionais (Freire esteve no acidente em que perdeu os pais aos 23 anos**), o piano torna-se fiel companhia. Numa passagem do filme, Freire trata o novo piano da Sala São Paulo como um ente orgânico, personificado, dizendo “não sei o que acontece, não foi com minha cara, mas eu não fiz nada pra ele”. E se Freire pode personificar o piano, então o pianista, quando o executa, pode converter-se na própria personificação da música.


Titulo: Um homem e suas palavras

Autor: Eduardo Socha

Gênero: Resenha

Data de publicação: 8 de maio de 2003

Resumo:

Nelson Freire encontra na eloquência do discurso musical uma força superior ao verbo.

, ,

3 Comentários

  1. Mário disse:

    Leve, bem articulado, gostoso. A resenha não se impõe, assim como o documentário, nas maneiras e na vida do pianista. Boa!

  2. Sampa disse:

    Socha, já pensou em escrever profissionalmente? Acho que você não deve nada a nenhum articulista da mídia. Parabéns!

  3. Alexandre Piccolo disse:

    Muito bom, pra variar… Pra usar a mesma transposição, se estas palavras personificam uma resenha… Muito bom, Socha.

Deixe seu Comentário

Spam Protection by WP-SpamFree

Quem é Eduardo Socha?

Estudante de filosofia; nas horas vagas, engenheiro.

Bad Behavior has blocked 41 access attempts in the last 7 days.