Resenha por Alexandre Piccolo
4 de fevereiro de 2003

Pela primeira vez leio algo de Émile Zola (1840-1902). Escritor consagrado do realismo francês no final do século XIX, Zola nos chega até os dias de hoje, em especial, através de seus romances, com destaque para Germinal (a ser lançado nas bancas por R$11,90), obra há muito já transposta para o cinema. No entanto, depois de ouvir falar do autor pelo filme, tive finalmente minha primeira impressão no papel. Três de suas novelas, vertidas para o português por Marina Appenzeller e publicadas num simples e belo volume de bolso pela editora gaúcha L&PM fazem valer o "livrinho". Dois destaques, um relevante e outro bem menos: a capa do livro traz um detalhe da tela de Gustave Coubert, le désespéré, tema que muito custou ao pintor francês; e o livro me foi emprestado por um velho e bom amigo, o economista Serjão.
O título na capa é o nome da primeira história: A Morte de Olivier Bécaille. Nesta ficção de angústia e opressão, materializa-se o insuportável pesadelo que todos um dia já tivemos - ser enterrado vivo. O protagonista, em seu literário ataque de catalepsia, vivencia e nos narra, no furor da prosa em primeira pessoa, seu funeral, cortejo e enterro, preso na tortura de uma consciência plena e na revolta de sua incapacidade física. Momentos de vertigem e convulsão levam o leitor à beira da loucura ao acompanhar o desenrolar sufocante de quem "desperta" num caixão debaixo da terra, rumo a um final inesperado, surpreendente.
Nantas, a segunda novela, talvez revele sua melhor faceta realista, ainda que envolto no tema romanesco (para não dizer romântico) da narrativa. A personagem principal, Nantas, homem de aspirações homéricas e impulsos quixotescos, abandona a beira da morte e perde por completo seus escrúpulos para enfim concretizar seus sonhos: casa-se com a senhorita Flavie por interesse mútuo, reparo familiar da gravidez indesejada desta, ascenção social e financeira daquele. Alcança e realiza todos seus desejos de fortuna e sucesso, mas se vê frente ao insignificante vazio mortal em que começara e que tanto cobiçara ("A vida era tola, os homens superiores acabavam tão bobamente quanto os imbecis", a metamorfose de uma citação do Eclesiastes). E nesta irrefreável tensão deste desenrolar, um novo elemento surge, nos parágrafos finais, para lhe perdoar a frieza em seus erros e salvá-lo da derrocada desgraça, um lance final do amor…
A terceira e última novela do pocket é A inundação, história de Louis Robieu, dono de uma bela propriedade rural que vê a calmaria de sua idosa vida familiar imergir num desastre da natureza, flagelo sem proporção. Na casa que parece abençoada, onde brota a felicidade, a morte leva seus familiares em correntes incontroláveis de água. Ficam o vazio, a tristeza e a lembrança do jovem casal de noivos que morreram afogados e abraçados, imagem de pavor e ternura.
Os limites díspares em que começam e terminam as histórias costuram a tensão da prosa de Zola no desenrolar destas breves narrativas: da morte à vida, do fracasso ao sucesso, da calmaria ao desespero e ao nada. Alfredo Bosi fala em dialética da revolução em literatura. Talvez esta revolução se manifeste, em Zola, na indiferença entre estados tão opostos, igualando-os, através de um antagonismo calculado, de um realismo frio, niilista, em que opostos tão fortes se encontram.
Em resumo, uma tensa (e prazerosa) compilação de novelas que deixam o leitor inquieto, nervoso, sufocado, num texto que acorrenta e nos arrasta por um turbilhão de emoções impossíveis de se ignorar.
Titulo: um primeiro contato com Zola
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Resenha
Data de publicação: 4 de fevereiro de 2003
Resumo: Uma breve resenha de um pocket brasileiro dum clássico autor francês.
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