Uma (nem tão) admirável resenha

Resenha por Mário Neto
19 de março de 2003

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Aldous Huxley,
autor de Admirável Mundo Novo.

Na última semana terminei a agradável leitura de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Apesar de constar há anos na minha - interminável - lista de livros essenciais, alguns estímulos fizeram-me colocá-lo entre aqueles de maior prioridade*. Por um lado, questões de antropologia e genética que recentemente têm rondado meus pensamentos. Por outro, uma antiga reflexão sobre as questões da felicidade e da sociedade que vive para a produção. Comento aqui, portanto, nem tanto sobre o enredo em si, mas minhas impressões sobre a sociedade imaginada pelo jornalista inglês.

Na sociedade futurista de Huxley, tudo gira em torno do coletivo. O aparelho estatal controla praticamente todos os aspectos da sociedade, começando pela reprodução por demanda de seres humanos - chamada de decantação, pois eles são nascidos de frascos -, seguida de uma predestinação social - cada indivíduo decantado, baseado em suas potenciais características e também na demanda, é separado numa casta social correspondente (alfas, betas, gamas, deltas e ípsilons) -, e depois o condicionamento psíquico, visando impor valores e condutas que mantenham a estabilidade - "as engrenagens rodando".

O condicionamento merece menção especial. É dele que surge o "amor à escravidão", ou seja, fazer com que os predestinados a certa casta social amem a posição que ocupam e, também, que não almejem posições de outra casta. Assim não há lutas de classes, disputas pelo poder ou uma insatisfação com sua atual posição. Todos ocupam seu lugar e amam o que fazem, não importa se são semi-imbecis Ípsilons que trabalham como ascensoristas ou se são Alfas-Mais que trabalham no Centro de Incubação e Condicionamento. O condicionamento também estimula o consumismo ("não conserte, compre novo", esportes onde a quantidade de equipamentos necessários é imensa e cara, etc.) e impõe o horror aos livros e às flores. Aos livros pois aqueles que lêem e pensam são fontes potenciais de discordância e instabilidade, e às flores pois o belo e gratuito se opõe ao consumismo. Tudo para manter a estabilidade da sociedade e da produção.

Outro ponto que merece menção é a questão da felicidade. Manter a estabilidade da sociedade através da força, da agressividade e da imposição não é o modo mais inteligente de se obter bons resultados. Melhor seria se os indivíduos quisessem, instintivamente e por livre e espontânea vontade, se comportar da maneira como o estado gostaria que eles se comportassem. Assim, além do estado manter sua estabilidade, resolve-se o problema da felicidade. Indivíduos querendo - pelo condicionamento - ocupar certas posições e, de fato, ocupando essas posições. Vê-se portanto a importância - já citada - do condicionamento e, ainda mais importante, do soma.

O soma, uma droga que provoca um tremendo bem-estar e com efeitos colaterais praticamente nulos, é parte fundamental da estratégia de estabilidade do estado. Distribuídas a todos, suas doses visam manter um alto nível de satisfação e felicidade dos indivíduos, mantendo assim a produção. A libertinagem sexual também é outro fator para a manutenção da satisfação, sendo o amor e a paixão obstáculos à produção. Veja, como exemplo, a seguinte canção encontrada no livro:

"Abraça-me até narcotizar-me, benzinho;

Beija-me até a coma;

Aperta-me muito, envolve-me com carinho;

O amor é como o soma."

De certa forma, a questão da felicidade individual é resolvida pelo amor à escravidão e pelas doses de sexo e soma. Não há portanto aflições individuais que possam criar instabilidade, pois todos os desejos são realizados. A morte é condicionada como algo natural e rápido. A dor praticamente inexiste. A paixão e o amor a um único indivíduo são rigidamente desestimulados, através do soma e de tratamentos anti-paixão. Assim, qual a necessidade de um Deus, se não há problemas sem solução e se não há desejos que não podem ser realizados?

Algumas questões - provavelmente não intencionais - deixaram gostinho em minha boca. Até que ponto vivemos nós para a produção, e não ela para nós? Até que ponto os "serviços" prestados ao ser humano - saúde, educação, lazer e etc. - não são "oficinas" para mantê-lo girando as engrenagens da produção, que é para quem ele vive e para quem tem dedicado a maior parte de seu tempo?

Questões que deixo nessa (nem tão) admirável resenha.

* Eu não sou tão organizado assim ao ponto de ter uma lista de livros e, ainda por cima, estruturados por prioridades.


Titulo: Uma (nem tão) admirável resenha

Autor: Mário Neto

Gênero: Resenha

Data de publicação: 19 de março de 2003

Resumo:

A sociedade futurista de Admirável Mundo Novo.

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