Tradução por Alexandre Piccolo
19 de maio de 2003

Órfão de um pai pintor aos 5 anos, Gustavo Adolfo Bécquer nasceu em Sevilha no ano de 1836 e, antes de completar 11 anos, perdeu sua mãe. Como o irmão também pintor, Bécquer desenhava admiravelmente bem e foi criado com a boa situação financeira e os carinhos da madrinha; porém, aos dezoito anos incompletos, renunciou a vida com a família que ainda restava pelo desejo de sucesso e glória em Madri. Fracassou. O irmão lhe foi companheiro por toda a vida.
Bécquer "tinha extraordinário gosto não só pelas letras, mas por todas as belas-artes" [1], entrentanto praticou-as por puro dom e prazer, pois se frustrou em diversos empregos temporários. Entre cargos públicos, composições apressadas para jornais e pinturas a fresco, compôs, em verso e prosa, escritos de uma simplicidade e profundidade marcantes, admiráveis por sua síntese, fantasia e clareza. E recomendou a um amigo: "se possível, publica meus versos; tenho o pressentimento de que morto serei mais e melhor conhecido que vivo." Morreu aos 44 anos, pobre e desconhecido, e toda sua fama, pequena ainda em língua portuguesa, é póstuma.
Seus contos e poemas souberam chegar por igual - ainda que por caminhos distintos - ao povo, à burguesia, aos poetas e aos estudiosos de sua obra. "O mistério destas múltiplas famas paralelas não tem precedentes em toda poesia espanhola" [2] - nos revela Rafael Montesinos. Da obra de Bécquer destacam-se, em prosa, as Leyendas, contos de temas tipicamente românticos, e, em verso, as Rimas, obra composta por uma introdução sinfônica e 76 partes de estrofes variáveis, cujos versos deixo alguns por aqui, como os primeiros passo de uma audaciosa caminhada:
Conheço um hino gigante e estranho
que anuncia na noite da alma uma aurora
e estas páginas são deste hino
cadências que o ar dilata nas sombras.
Eu quis escrevê-lo, do homem
domando o rebelde mesquinho idioma,
com palavras que fossem a um só tempo
suspiros e risos, cores e notas.
Mas em vão é lutar, que não há cifras
capaz de medi-lo, e apenas, oh formosa!
se tendo em minhas mãos as tuas,
poderia a teu ouvido cantá-lo a sós. [3]
IV
Não digas que esgotou teu tesouro,
a falta de assuntos emudeceu a lira;
poderá não haver poetas, mas sempre
haverá poesia!
Enquanto as ondas da luz ao beijo
palpitem acesas,
enquanto o sol as rasgadas nuvens
de fogo e ouro vê,
enquanto o ar em teu regaço
perfumes e aromas leve,
enquanto houver no mundo primavera,
haverá poesia!
Enquanto a ciência a descobrir não alcançar
as fontes da vida
e no mar ou no céu houver um abismo
que ao cálculo resita,
enquanto a humanidade sempre avançando
não souber por onde caminha
enquanto houver um mistério para o homem
haverá poesia!
Enquanto se sinta que a alma se ri
sem que os lábios riam
Enquanto se chore, sem que o pranto caia
a enevoar a pupila
enquanto o coração e a cabeça
batalhando prosseguirem
enquanto houver esperança e recordações,
haverá poesia!
Enquanto houver olhos que refletem
os olhos que os vêem
enquanto responder o lábio suspirando
ao lábio que suspira
enquanto puderem se sentir em um beijo
duas almas confundidas
enquanto existir uma mulher formosa
haverá poesia! [4]
[2] Montesinos, R., El secreto de Bécquer in Rimas, ediciones Cátedra, 5a. ed., 2000 - p. 79 e 80.
[3] Bécquer, G. A., op. cit. - p. 109
[4] Bécquer, G. A., op. cit. - p. 113 e 114
Titulo: a caminhada de Bécquer
Autor: Alexandre Piccolo
Gênero: Tradução
Data de publicação: 19 de maio de 2003
Resumo: uma longa caminhada começa com os primeiros passos - alguns versos de “Rimas”, de Gustavo Adolfo Bécquer.
Parabéns Alexandre. Ainda irei ler todos os outros textos. Mas, já fiquei surpresa com esse. Você vai voar muito mais longe!!!
Bacana Alex. Sinto que vc tem muito evoluído neste trabalho de tradução e com bastante desenvoltura. Você vai longe…
Oi Alê,76? Audacioso mesmo… serão traduções? Me lembre de levar Prevert no original e traduzido para vc. adorei Bécquer qdo diz que “enquanto houver olhos que refletem/os olhos que os vêem/enquanto responder o lábio suspirando/ao lábio que suspira/enquanto puderem se sentir em um beijo/duas almas confundidas/(…)haverá poesia!”. Vc está me tornando uma tia muito culta…Bjs, Tia Marilda
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Alexandre,Gostei muito do poema. Como não conheço o original, não vou comentar muito. O que posso dizer é que lendo este texto não se percebe que foi traduzido. Isto é muito importante, pois a tradução se sustenta.Um abraço e continue a me enviar textos. É sempre um prazer poder ler sua produção.Cristina