Alphonse Allais

Tradução por Alexandre Piccolo
11 de abril de 2005

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Alphonse Allais
(gravura)

Alphonse Allais nasceu em Honfleur, cidade litorânea do "departamento" de Calvados, no norte da França, em 20 de outubro de 1854 - mesmo dia do nascimento de Arthur Rimbaud. "Normando por parte de mãe e Bretão por parte de um amigo do pai" - uma de suas várias citações, não raro de autoria controversa - Allais, durante sua vida boêmia em Paris, escreveu crônicas e contos e outros textos com um estilo peculiar, que acabou por lhe conferir o título de príncipe do humorismo.

Dois de seus textos figuram na Antologie de l'Humour Noir, organizada por André Breton ao final dos anos 30. Aurélio Buarque de Holanda e Paulo Rónai, além de lhe traduzirem um engraçadíssimo conto, definem a "inconfundível fórmula do espírito" do escritor: "ele parte, em geral, de uma idéia grotesca e absurda, que vai desenvolvendo com seriedade imperturbável, no tom convencional dos jornais ou dos escritores medíocres, com larga profusão de clichês e lugares-comuns".

As histórias de Alphonse Allais acompanharam minha última viagem num pequeno volume de bolso e, ao ler algumas de suas narrativas, tive vontade de traduzi-las, especialmente por não encontrar exemplares do autor traduzidos em português. Escolhi o diálogo que segue por tomá-lo como um texto leve, sem "grandes entraves tradutórios", ao menos à primeira vista. Fica aqui, pois, uma primeira tentativa de tradução. Como uma tradução nunca é definitiva, sugestões e críticas são sempre bem vindas.




Um meio como um outro

_ Era uma vez um tio e um sobrinho…

_ Qual era o tio?

_ Como "qual"? Era o mais gordo, oras!

_ São gordos os tios?

_ Geralmente.

_ Mas meu tio Henri não é gordo.

_ Seu tio Henri não é gordo porque ele é artista.

_ Então não são gordos os artistas?

_ Você está me enrolando… Se você me interromper o tempo todo, não posso continuar minha história.

_ Não vou mais te interromper, vai.

_ Era uma vez um tio e um sobrinho. O tio era muito rico, muito rico…

_ Quanto que ele tinha de dinheiro?

_ Dezessete-cem-milhões de renda, e mais casas, carros, sítios…

_ E cavalos?

_ Ora! se ele tinha carros.

_ Barcos?… ele tinha barcos?

_ Sim, quatorze.

_ A vapor!

_ Havia três a vapor, os outros eram à vela.

_ E seu sobrinho, será que ele ia nos barcos?

_ Me deixe em paz! Você me impede de contar a história.

_ Conte, vai, não vou mais te impedir.

_ O sobrinho, ele não tinha um tostão e isso o incomodava enormemente…

_ Por que seu tio não lhe dava?

_ Porque seu tio era um velho avarento que gostava de juntar todo seu dinheiro só para si. Entretanto, como o sobrinho era o único herdeiro do sujeito…

_ Que que é "herdeiro"?

_ São as pessoas que pegam seu dinheiro, seus móveis, tudo que você tem quando você morre.

_ Então, por que ele não matava o tio, o sobrinho?

_ Ah! bom! Você é espertinho, hein! Ele não matava o tio porque não se deve matar seu tio, em qualquer circunstância, mesmo para herdá-lo.

_ Por que não se deve matar seu tio?

_ Por causa dos policiais.

_ Mas se os policiais não ficarem sabendo?

_ Os policiais ficam sabendo sempre, o zelador vai lhes prevenir. E depois, no fim, você vai ver que o sobrinho foi mais malvado que isso. Ele reparou que seu tio, após as refeições, ficava vermelho.

_ Talvez porque ele estivesse cheio.

_ Não. Era assim seu temperamento, ele era apoplético…

_ Que que é "apoplético"?

_ Apoplético… são as pessoas que têm sangue na cabeça e que podem morrer duma forte emoção…

_ Eu sou apoplético?

_ Não, não, você nunca será apoplético. Você não têm uma natureza dessas. Então o sobrinho tinha percebido que especialmente as grandes gargalhadas deixavam seu tio doente, e que uma vez ele quase morreu num surto de riso muito prolongado.

_ Isso faz morrer então, rir?

_ Sim, quando se é apoplético… Um belo dia, então, o sobrinho chega na casa do tio bem no momento em que ele saía da mesa. Nunca ele havia jantado tão bem. Ele estava vermelho como um galo e estava ofegante como uma foca…

_ Como as focas do jardim de aclimatação?

_ Essas não são focas, são leões-marinhos. O sobrinho disse para si: "enfim, um bom momento", e pôs-se a contar uma história engraçada, engraçada…

_ Me conta, vai!

_ Espera um instante, eu vou te contar ao final… O tio ouvia a história, e ele ria de se contorcer, tanto que ele estava morto de rir antes que a história estivesse completamente terminada.

_ Que história ele contou então?

_ Espera um minuto… Então, quando o tio morreu, enterraram-lhe e o sobrinho herdou…

_ Ele ficou com os barcos também?

_ Ele ficou com tudo, pois ele era seu único herdeiro.

_ Mas que história ele contou pro seu tio?

_ Aha!… essa que eu acabei de te contar.

_ Qual?

_ Essa do tio e do sobrinho.

_ Ah, safado, vai…

_ E você, então!


Titulo: Alphonse Allais

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Tradução

Data de publicação: 11 de abril de 2005

Resumo:

Traduzir enquanto se ri também é escrever…

2 Comentários

  1. PH disse:

    excelente exercício, excelente escolha de texto, excelente tradução, excelente dica, excelente tudo.

  2. Mário disse:

    Hehehe, boa pedida… Podia ter colocado o texto original, só por curiosidade. ;-)

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