Paul Verlaine

Tradução por Alexandre Piccolo
22 de julho de 2003

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Paul Verlaine

Em 5 de junho de 1944, soldados alemães interceptaram uma mensagem codificada da resistência francesa que desvendava os planos de uma invasão Aliada em 24 horas. A mensagem era a primeira estrofe de um poema de Paul Verlaine (1844 - 1896), poeta simbolista francês ? versos aqui traduzidos “letra a letra”:



Os soluços longos

dos violinos

de outono

ferem meu coração

de um langor

monotônico.



Um dia depois, centenas de soldados norte-americanos desembarcaram na Normandia para o reforço maciço do contra-ataque Aliado na II Guerra Mundial, neste dia que ficou conhecido como "dia D". Este jour J, como relembram os franceses, também ficou marcado pelo poema de Verlaine, que foi retransmitido à Paris, desta vez pela BBC londrina, na voz do general Charles De Gaulle, reforçando o anúncio festivo “du débarquement” aliado. A “canção de outono”, título do poema de Paul Verlaine, ficou na memória francesa e até hoje é recitada graças à confluência de motivos distantes porém complementares: sua musicalidade e simbologia originais se uniram a vitoriosos emblemas de finais de guerra. O poema completo de Verlaine:



Chanson d'automne

Les sanglots longs

Des violons

De l'automne

Blessent mon c?ur

D'une langueur

Monotone.

Tout suffocant

Et blême, quand

Sonne l'heure,

Je me souviens

Des jours anciens

Et je pleure;

Et je m'en vais

Au vent mauvais

Qui m'emporte

Deçà, delà,

Pareil à la

Feuille morte.



(de Poèmes saturniens)

Verlaine certamente jamais previra tal reviravolta no uso de sua poesia, mesmo tendo-a vivida com furor e reviravoltas. Filho de um oficial do exército, casou-se aos 26 anos, depois de publicados dois livros de versos pura e tecnicamente parnasianos, e abandonou a esposa dois anos após o matrimônio para viajar e viver com o poeta Arthur Rimbaud ? então um jovem de 17 anos. Entre crises de embriaguez, passagens pela prisão e reconversão ao catolicismo, Verlaine deu aulas de línguas e tentou a vida bucólica campesina com um jovem aluno, mas terminou-a entre o alcoolismo e um cético arrependimento. Já ao final da vida produziu versos cuja temática reflete uma preocupação com o sonho e a ilusão, marcos importantes dentro da corrente simbolista pela qual Verlaine é popularmente conhecido. Nesta fusão de signos, sons e imagens, encontramos uma poesia dificílima de ser traduzida, deixando ao tradutor uma eterna insatisfação ante o resultado imperfeito. Como ressalta uma biografia espanhola sobre o autor, o som de seus versos é geralmente mais importante que seu significado e este é dissonante sem o ritmo e a musicalidade naturais de seus versos.

Seguem duas traduções, uma em inglês e outra em italiano ? como opções díspares de abordagens pelos tradutores ? além da alternativa “criativa” de nosso Alphosus de Guimaraens, para ressaltar a dificuldade desta árdua tarefa. Houve quem dissesse que traduzir é trair. Os alemães perceberam esta mensagem ao receberem e decifrarem novos e velhos mistérios na poesia de Paul Verlaine.



The long sobs

The long sobs

of autumn's

violins

wound my heart

with a monotonous

languor.

Suffocating

and pallid, when

the clock strikes,

I remember

the days long past

and I weep.

And I set off

in the rough wind

that carries me

hither and thither

like a dead

leaf.



(por Peter Low)

_________



Canzone d'autunno

I lunghi singhiozzi

Dei violini

D'autunno

Mi feriscono il cuore

Con un languore

Monotono.

Tutto affannato

E pallido, quando

Rintocca l'ora,

Io mi ricordo

Dei giorni antichi

E piango;

E me ne vado

Nel vento maligno

Che mi porta

Di qua, di là,

Simile alla

Foglia morta.



(por Giuseppe Cirigliano)

_________



Canção de Outono

Os soluços graves

dos violinos suaves

do outono

num langor de calma

e sono.

Sufocada, em ânsia,

ai! quando à distância

soa a hora,

meu peito magoado

relembra o passado

e chora.

Daqui, dali, pelo

vento em atropelo

seguido,

vou, de porta em porta,

como a folha morta



(por Alphonsus de Guimaraens)

_________

Uma última curiosidade que enobrece o original e encarece a tradução: na primeira estrofe em francês, os três primeiros versos formam um "verso de onze sílabas poéticas", e os três versos seguintes um "decassílabo" - e desta combinação, talvez, a harmonia poderosa de sua recitação. Mais um desafio aos "decifradores" da eterna batalha…


Titulo: Paul Verlaine

Autor: Alexandre Piccolo

Gênero: Tradução

Data de publicação: 22 de julho de 2003

Resumo:

Tradução e traição, detalhes próximos dentro de uma eterna batalha.

4 Comentários

  1. Márcia disse:

    São constantes as comparaçoes com instruementos musicais, segmentos da natureza, como vento,folha, mostrando sempre uma sensibilidade incomum.

  2. Marilda Piccolo disse:

    Alê, Parabéns pelo texto, me fez conhecer melhor este poeta q eu conhecia só como vanguarda… Um bj. Tia Marilda

  3. Mário disse:

    Tá aí uma grande batalha e também a beleza - clichê? - de tanta diversidade no mundo. Traduzir - ou recriar? - sons, jogo de palavras, trocadilhos, sentimentos. Belo artigo-tradução, Piccolo!

  4. PH disse:

    não tenho nem o que falar Alex… bela poesia, bela prosa e muito, muito rica a sua contextualização. A cada dia eu me animo mais com aPatada!

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